(também disponível em http://www.correiodopovo.com.br/blogs/juremirmachado/?p=4525)
Algo está acontecendo por aí
Ouve-se um urro
vindo das ruas. Algo está acontecendo por aí e nada foi previsto nas análises
dos especialistas. Algo está acontecendo por aí e não se enquadra no figurino
das interpretações políticas acadêmicas. Algo está acontecendo por aí e tem a
força de um tsunami, a violência, por vezes, do ressentimento, a alegria, quase
sempre, das festas colossais e inesquecíveis, a criatividade dos momentos de
ruptura e a persistência, quem sabe, fugaz, mas devastadora, de uma avalanche,
de um tornado, de um terremoto, de uma lava subterrânea incontrolável e que
encontrou o caminho da superfície, de uma tempestade de verão, uma verão fora
de época, no outono, no inverno, que supera os seus limites, inventa novas
realidades, semeia poesia, utopia e acende esperanças.
Algo está
acontecendo por aí e tem a marca das redes, essas cadeias sociais que até há
pouco nem existiam, a marca da democracia direta, aquém e além dos partidos,
aquém e além dos poderes constituídos, aquém e além das sombras silenciosas, um
rugido, um rastilho de vozes, um clamor, uma indignação contra o velho,
contra o falso novo e contra os oportunistas que tentam infiltrar o velho no
novo. Algo está acontecendo por aí e se volta contra a sociedade “midíocre”,
conservadora, reacionária, moralista e amiga do poder econômico que funciona
como sistema de hierarquia social. Algo está acontecendo por aí e pode ser
visto, talvez, como mais um sinal da “passagem ao hiperespetacular”, um grito
contra a espetacularização da política por meio de uma aceleração, um basta à
greve das metamorfoses ancorado no retorno das massas ao palco da vida, as
ruas.
Algo está
acontecendo por aí e não se trata, como desejam alguns, de uma nostalgia da
ditadura, nem de uma confissão de amor ao egoísmo e ao horror econômico do neoliberalismo
caduco, tampouco de uma adesão tardia ao “melhor dos mundos” marxista, muito
menos de um repúdio aos avanços sociais duramente conquistados pelo Brasil.
Algo está acontecendo por aí e não se trata de um diagnóstico de que estamos em
nosso pior momento, mas, possivelmente, de que mesmo no melhor temos tanto do
pior, esse pior historicamente reproduzido, que chegou a hora de tomar as
rédeas e exigir o grande salto sobre o abismo das desigualdades, da hipocrisia,
dos conchavos, dos formalismos jurídicos aplicados quando convenientes e da
politicagem fétida em nome da governabilidade.
Sim, algo está
acontecendo por aqui e estamos no olho do furacão, fazendo história,
reinventando o cotidiano, passando o país a limpo, colorindo a política,
derrubando clichês, mitos e preconceitos, exigindo um novo jeito de ser, uma
postura inédita, um comprometimento nunca antes visto entre nós. Algo está
acontecendo por aqui e tem a fúria dos nossos indignados, o hálito dos nossos
inconformados, a garra dos nossos jovens inquietos, a “ingenuidade”, que
permite o impossível, dos que ainda não se habituaram a calar por excesso de
sensatez e de razoabilidade. Algo está acontecendo por aí e, maravilhosamente,
esse aí agora é aqui. Algo está acontecendo entre nós a ponto de colocar de
joelhos o sistema com seu cortejo de aproveitadores.
Algo está
acontecendo por aí e disso nunca esqueceremos.
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